terça-feira, 24 de março de 2020

A doce idosa, a sobrinha e o surtado



Em 2015, eu fui ao encontro de minha amada na sua cidade natal, Cafelândia - SP. Como eu estava na capital paulista e na ocasião sem carro, fui de ônibus.
São 450 km de distância e mais ou menos 6 horas de viagem. Na ida peguei o busão das 23h30, logo, viajei durante a madrugada.
Mais ou menos as 3h30 uma senhora, que estava uma poltrona para frente, mas no outro lado começou a conversar com sua acompanhante que a chamava de tia. Ela tinha uma voz rouca e forte e sua sobrinha começou a brincar no celular com um apitinho irritante. Ainda tinha mais umas duas horas de viagem, mas resolvi aguentar, pois já que ninguém estava reclamando, não queria ser eu o carrasco de brigar com uma pobre velhinha e uma adolescente de 30 anos que se entretinha com seu brinquedinho.
Elas desceram em Pirajuí que fica a uns 30 minutos de Cafelândia e meus ouvidos descansaram neste tempinho.
Na volta para Sampa eu peguei o ônibus das 15h30.
Para minha desesperada surpresa, quando o ônibus encosta em Pirajuí adivinhem quem entra no possante... Sim, a senhora da voz de trovão e sua escudeira Cell´s Woman. Para meu azar e minha bocaabertice eu estava sentado no lugar delas, que era uma poltrona atrás da minha. Falei para sentarem na frente porque é tudo igual mesmo, mas as chatas, e vão ser chatas assim na prostituta que deu a luz, fizeram questão de sentarem no lugar certo. Logo, eu pulei para frente e fiquei pensando: “Se de madrugada elas fizeram aquele auê todo, imagina neste horário”.
Para meu azar em Bauru um rapaz entrou no ônibus e sentou-se ao meu lado. Não! Ele não me fez nada diretamente, mas me fez um mal danado. Vou explicar...
Ele estava com fones de ouvido e resolveu ler. Ao anoitecer, ele ligou a lâmpada acima do seu assento. A doce senhora começou a reclamar do holofote que ia na cara dela. E não parou de reclamar um minuto até chegar em São Paulo. Em vez, de falar com o rapaz, ou cutucá-lo, ela falava alto com aquela bela voz de caminhão com escapamento furado.
Não sei como permaneci paciente, por fora, porque por dentro estava a um passo de ter um chilique. “O cara não te houve. Está com fone de ouvidos, liquido após ejaculação!”, era o que eu queria ter falado, mas não o fiz.
Eu não via a hora de chegar em Sampa e parar de ouvir aquela voz tenebrosa, por que já estava vendo a manchete da folha de São Paulo: “Homem terrível joga senhora idosa e sobrinha do ônibus em movimento sem abrir a janela”.
Enfim, chegamos com 1h30 de atraso.
Apressadinhas, mal o ônibus encostou e elas já estavam em pé querendo sair. Porém, mais apressado foi o meu carrasco indireto, que pulou na frente sem tirar dos ouvidos o bloqueador de gente xarope.
E para minha surpresa a mãe de uma de peguete do III batalhão do exército brasileiro olhou para mim sorrindo e, se referindo ao holofote do amigo, disse:
– Nesta viagem o senhor deve ter ficado incomodado, né?
– A senhora nem imagina o quanto – respondi.

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