quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Dia de Clássico

 



Lindo Domingo de sol. Os raios iluminados invadem o quarto pelas frestas da veneziana beliscando os olhos fechados de Juninho. Ele acorda sorrindo, levanta–se, abre a janela e deixa o dia brilhoso tomar conta do resto do quarto.

Juninho se espreguiça junto à janela exibindo seu corpanzil com o pneuzinho abdominal, troféu de muitas cervejas em barzinhos e churrascadas.  Não menos espreguiçante está a bela Luciana, rolando sensualmente na cama com sua sexy lingerie que faz justiça a sua exuberante forma física. Ela também se levanta vai até seu amado, o abraça por trás encostando a cabeça em suas avantajadas costas e diz:

– Que horas vamos para a casa da mamãe?

Ele se vira com olhar surpreso e responde:

– Casa da tua mãe?  Mas não é num restaurante? 

– Não mais. Ontem à noite me ligaram para avisar. Como tu estavas empolgado com o trabalho de conclusão eu não quis atrapalhar, aí, cai no sono.

– Mas logo hoje?

– O que tem hoje?

– Hoje é dia de clássico. Se o almoço vai ser na casa da tua mãe, será churrasco.

– Exatamente, mas o que tem a ver isto com o jogo?

– Lu, acorda !!! Se é aniversário da tua mãe, ela não vai cozinhar, se ela não vai fazer a comida só pode ser churras. Eu já conheço a história, vamos almoçar lá pelas três da tarde e eu queria ir no jogo.

– Ah amorzinho, mas vai dar tempo.

– Não vai dar não. Este já era, droga!

– Mas tu podes ver na TV.

– Que TV mulher? O jogo é local e nós não temos PPV.

– Mas o papai tem.

– É? E tu achas que eu vou ver o jogo com o teu pai torcendo para o Real? Além disso, o xarope do teu cunhado, vai estar lá também. Ele é Realista doente e dos mais chatos.

– Ai amor, eu também sou Realista.

– É! Ninguém é perfeito.

– E depois, toda a minha família é Realista.

– Não são, não. A tua mãe é do América, que eu sei.

– É! Mas é a única, mas porque não entende nada de futebol.

– Até parece que o resto entende. O defeito dela é que defende aquele parasita.

– Não fala mal do meu cunhadinho. Ele é um doce, gentil e muito prestativo.

– É eu sei, e tu ainda queres que eu assista o jogo lá. Prefiro, então, escutar no radinho. Aturar o teu pai ainda vá lá, mas teu cunhado? O Mr. Perfeitinho é um baita puxa–saco. Ele nem é deste estado, adotou Real FC para bajular o teu pai. Isto que nem casou ainda, imagina depois. E ainda, a transferência dele saiu há seis meses e continua morando lá. Baita explorador, sanguessuga.

– Tá com ciuminho, bem?

– Que ciuminho, o quê? Eu queria é ir ao jogo e não assistir com um bando de Realistas derrotados.

– Ah não, Sr. Junior! Derrotados? Não! Meu time é muito melhor que o teu.

– Melhor? Quem é o campeão do estado e quem tá na frente no campeonato nacional?

– Isto é um detalhe.

– É, eu sei, um detalhe, como assistir o jogo na casa do teu pai. Ai meu Deus, tudo menos isto. Joguei pedra na cruz.

– Ah amor, o que é isto?  É apenas um joguinho.

– Joguinho, nada. Vocês mulheres que se dizem tão sensíveis, em futebol são totalmente insensíveis. Como dizia um jogador, clássico é clássico e vice versa.

– Nossa, que ignorante.

– É !! Foi o Jamel que disse, era do teu time.

– Putz! Foi mal. Mas que horas vamos para a casa da mamãe?

– Assim que eu tomar um banho.

E o banho termina e Juninho procura a camisa do seu clube do coração, o América.

– Luciana? Cadê a camisa do América?

– Está para lavar. A faxineira não veio.

– Droga. O que falta acontecer agora?

E eles seguem para a casa da Dona Jussara, mãe de Luciana, e chegando lá encontram a cunhada, cunhado, sogro, primo e tios de Luciana, todos fardados com o uniforme do time adversário.

– Aí! chegou o sofredor – falou seu cunhado.

– Edmilson – falou Juninho – sofredor é a tua progenitora.

– Ui ui ui, a boneca está nervosa. Deve ser porque o time dele vai levar uma sacola do Realzão. Cadê aquele pano de chão que você chama de camisa? – risadas.

A gargalhada foi geral e Juninho engole em seco porque está em minoria.

– E ai sogrão – falou Edmilson – vou assistir o jogo com o senhor.

– Tudo bem, meu filho, será um prazer. A geladeira extra está cheia de cerveja.

– Uhhh! – exclama Edmilson – Vamos comemorar a vitória do timão.

– E ai cunhado – falou Juninho – Já achaste um apartamento? Conheço um corretor de primeira. Ele te consegue um em uma semana – e dá um sorrisinho debochado mas leva, de Luciana, um pisão no pé.

– É que que – gagueja Edmilson – a empresa tá demorando um pouco para dar a ajuda de custo.

– É, eu sei – pensa Juninho – aposto que está embolsando a grana.

O tempo vai passando e a sobremesa é servida. Juninho olha o relógio, vê que são 15:30 e chama Luciana para ir embora.

– Mas amor, vamos ficar mais um pouquinho.

– Não dá amor. Eu quero estar em casa quando o jogo começar.

– Mas vê aqui.

– Aqui não. Com este chato? Deus me livre. Eu já disse que prefiro ficar no radinho.

– Já vão – fala Edmilson – Fica para assistir o jogo. Tá com medo? – gargalhadas.

– Não camarada, eu tenho casa, preciso ir embora.

E mais um cutucão Juninho leva de Luciana.  Eles vão embora abaixo de vaias dos demais familiares. É claro que as vaias eram para Juninho. Chegando em casa, ele corre para ligar a TV. Tinha esperança de o jogo passar em canal aberto porque foi noticiado no rádio que o estádio lotou precocemente. Porém, nada, apenas o clássico de outro estado.

– Fazer o que – lamenta Juninho – o jeito é ficar ouvindo mesmo.

Sentados no sofá da sala, lado a lado, Juninho e Luciana assistem o jogo, de outro estado, que passa na TV. Entretanto, ele com o fone de ouvido, nem enxerga o jogo transmitido, apenas tenta imaginar o clássico ao som da voz eloqüente do narrador regional. Já no comecinho, Bastian abre o marcador para o América e Juninho pula do sofá berrando:

– Feitooooooooo! Dá–lhe timão !! Quem é o sofredor agora?

– Putz, já! – responde Luciana – não deu nem tempo de esquentar. Acho que vou dormir. Quando eu acordar vou ver que meu time virou.

– Que virar o quê? Hoje vocês irão ver o que é bom para tosse. Hoje não tem para ninguém. Só vai dar América.

Juninho liga para a casa do sogro e quem atende é o cunhado, em vez de ele falar, grita:

– Chupaaaaaa! – E desliga o telefone.

Luciana vai dormir, e ele continua ligado no radinho, em seguida ele esbraveja loucamente. Luciana vai até a sala, pois ainda não tinha dormido, ver o que foi.

– Que aconteceu? Meu time empatou? – risos.

– Que nada, este juiz já começou a complicar. Quer destruir meu time. Já expulsou dois do América.

– Então estão jogando com dois a menos? Que time de baderneiros.

– Não fala o que não sabe meu amor. Foram dois dos teus também.

– Então do que está reclamando?

– É que o Bastian e o Armando jogam mais que todo o teu time junto, somando os reservas.

– Ah é? Só quero ver depois do jogo.

E Luciana foi tentar dormir novamente.

Algum tempo depois, Lorival amplia para o América, e novamente Juninho grita, pula na sala, corre de um lado para o outro. Mas, Luciana já havia pego no sono e quando ela dorme, nem bomba atômica a acorda. Ele pega o telefone, e novamente liga para a casa do sogro, mais uma vez o cunhando atende e ele grita:

– Feitoooooooo, trouxa!

Ele recebe um clic na cara, mas Juninho cai na risada. O primeiro tempo termina. Extasiado ele vai até a cozinha, abre a geladeira, pega uma cerveja. Põe a camisa do seu time em lavagem rápida e volta para o sofá. Somente neste momento ele se prende a TV e curte os melhores momentos do jogo que está sendo transmitido, porém, ansioso para o início do segundo tempo do seu jogo. Novamente sentado no sofá, desliga-se da TV e fica em estado catatônico. Somente o rádio tem efeito. O jogo parece estar muito fácil, e logo Feliciano aumenta a diferença para delírio de Juninho.

– Feitoooo, feitaçoooooo. Uh Feliciano!  Hoje vai ser goleada. Quero ver estes palhaços me encherem o saco.

Novamente correu para o telefone, mas desta vez dá sinal de ocupado.  Ainda no ritual de comemoração, Feliciano faz mais um. Juninho suspende a comemoração, apenas levanta as mãos para cima e solta uma gargalhada. Ele corre para o telefone novamente, mas continua ocupado. Em seguida, o Real desconta. Mas, Juninho não se aflige e diz:

– Acontece, clássico é clássico.  

Mas, dez minutos depois sai mais um gol do América, desta vez foi Barcelo que coloca a bola nas redes. Juninho cansado de tanta comemoração apenas bate palmas. Desta vez, ele nem tenta o telefone, pois sabe que seria em vão. Ele corre para a lavanderia tira a camisa da máquina de lavar e a coloca na de secar, volta correndo para a sala porque em futebol, até o menos supersticioso não dá sopa para o azar. Senta no mesmo lugar e a superstição funciona porque o América faz o sexto. Com o olho discreto na TV e atenção voltada para o rádio percebe que o jogo da TV muda e o narrador fala:

– E agora você que estava assistindo Coqueiros x São Pedro passa acompanhar momentos finais de Real x América.

Surpreso, Juninho prende–se às imagens. Luciana aparece na sala espreguiçando–se e pergunta.

– Ué? Está passando?

– Só o finalzinho – respondeu Juninho meio apreensivo porque o adversário está atacando. Ele vê seu time sofrer um gol no fim do jogo. Luciana distraída ouve o narrador:

– E é o segundo gol do Real.

– Viu? Viu? Não falei que iríamos virar? Da–lhe Real, olê olê olê olá Real Real.

– Luciana!

– Não vem, não. Curtiste com a minha cara agora é a forra. Tem que saber perder.

Então Juninho aumenta o volume da TV, e o narrador:

– E termina o jogo, goleada histórica do América 6x2 em cima do rival.

– O quê? Mas, mas cachorro! Deixou eu me empolgar por nada.

– Tu não deixaste eu te explicar.

Luciana joga a almofada na cara de Juninho, que com força desproporcional, a agarra e inicia uma seção de cócegas.

– Para! Para! – grita ela as gargalhadas.

– Quem é o melhor time do mundo?

– O Real!

E as cócegas continuam.

– Qual?

– O América! O América!

– Ah! Agora sim.

E Juninho tasca um beijo em Luciana, que corresponde.

– Juninho?

– Já sei. Queres voltar para a casa da tua mãe. Com todo prazer.

– Bem, isto eu ia te pedir depois, mas antes que tal nosso clássico particular?

– É para já.

Bem, ai quem já conhece este humilde narrador sabe que ele não gosta de se intrometer nas intimidades dos casais. Algum tempinho depois, Juninho busca a camiseta do América, a veste e diz:

– Estou pronto para jantar com a minha sogrinha querida.

– Vou ligar para avisar.

– Não precisa, faremos surpresa. Festa na casa dos teus pais duram a semana toda. Teus primos devem estar todos lá ainda e o cunhadinho – risos – este mora lá, né? Se avisarmos teus parentes, todos correrão.

No caminho, Juninho compra uma camiseta do seu time de um camelô de sinaleira e passa no super para comprar dois lotes de cerveja. Como havia uma marca de ceva patrocinando os times, ele compra, e é lógico, todas com a estampa do América. Chegando lá ...

– Olá – exultante Juninho cumprimenta a todos – que noite magnífica, não acham?

Alguns já tinham tirado a camisa do real e todos com a famosa cara de bunda, respondem em coro meio morto:

– Boa Noite.

– Mas que boa noite chocho pessoal, vamos de novo, Boaaa Noiiite.

Apenas a sogra respondeu.

– Sogrinha querida, eu te trouxe outro presente, é de camelô, mas é de coração.

– Ai que fino. Uma camiseta do meu time, muito original, esta eu nunca tinha ganho.

– Pois é, tem gente que não lhe dá nem uma rosa, né? – Juninho fala olhando para o cunhado – E para os priminhos e tios da minha esposa linda, meu cunhado preferido e meu sogrinho este presentinho – ele mostra as cervejas recém compradas.

– Eu que não vou tomar esta joça, vai me dar uma dor de barriga – responde o cunhado.

– Não vai dar não Milsinho, para cada seis que beberes do América, toma duas do teu time que ficarás bem – Gargalhada.

– Até parece que vocês adivinharam! – falou a sogra – Com os acontecimentos, eu fiz uma torta e ia chama–los.

– Mas a senhora não ia conseguir, Sogrinha querida. Acho que o teu telefone está com defeito – mais uma vez ele olha para o cunhado.

– É que alguém deixou fora do gancho.

– Deve ter sido descuido, né sogrinha?

E a sogra vai até a cozinha e traz a torta vestindo a camiseta nova. A surpresa maior é que a dona Jussara fez uma torta com as cores e o símbolo do América.

– Olha só – gritou Juninho – que bolo lindo – todos ficaram quietos – e que coincidência, a senhora fazendo 62 aninhos que linda idade.

– O que tem a ver isto – responde o cunhado de mau humor.

– O que tem? Olha só – retruca Juninho – 62 é 6 e 2, entendeste, 6 e 2 e cai na risada.

A torta é servida, todos saboreiam

– Agora uma foto só eu e a sogrinha – solicitou Juninho, e a Luciana tirou – agora de costas – pediu outra foto.  

– Por que de costas? – perguntaram.

Juninho se vira de costas junto com a sua sogra mostrando o número 6 de sua camiseta e o 2 da que recém tinha comprado para dona Jussara.  Só os dois dão uma gargalhada.


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