sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Amor de infância

As luzes do Parque dos Jasmins assumem a função do Sol que já começa a se pôr no horizonte pintando o céu com tons alaranjados.

No meio do vaivém de famílias e do cheiro doce de pipoca no ar, o pequeno Rodrigo, de apenas dez anos, sentia o peito apertar. Ele havia se afastado dos pais perto do lago e, agora, as lágrimas teimavam em cair.

– Você está perdido? – uma voz suave o desperta.

Rodrigo olha para o lado e vê uma menina da sua idade, com os cabelos desalinhados pelo vento e segurando um imenso algodão-doce rosa. É Letícia, que sem esperar resposta, estende a outra mão oferecendo parte do doce.

– Minha mãe diz que açúcar cura susto – diz sorrindo.

Aquele gesto simples muda tudo. Pelas  horas seguintes, enquanto os pais de ambos não aparecem na administração do parque, os dois se tornam inseparáveis. Correm pelos brinquedos luminosos, divertem-se no carrossel e terminam a tarde tentando a sorte na barraca de argolas. Como prêmio de consolação, ganham dois chaveiros de metal pesado, com seus nomes gravados de forma rústica.

A despedida é abrupta. Os pais de Rodrigo surgem aliviados, assim como os de Letícia. Sabendo que o tempo é curto e sem papel para anotar um telefone, Letícia tem uma ideia. Ela pega o chaveiro que tem o nome Letícia e entrega para ele, pegando para si o que tinha o nome Rodrigo.

– Para a gente nunca esquecer – ela diz, antes de ser puxada pela mãe.

Na semana seguinte, a família de Letícia muda-se para outro estado. O destino os separou geograficamente, mas o elo estava criado.

Os anos passaram. Letícia cresceu carregando aquele pedaço de metal para todos os lugares. O chaveiro com o nome Rodrigo tornou-se seu amuleto da sorte, preso à chave principal, embora o metal estivesse gasto e arranhado pelo tempo. Para ela, representava a inocência de um dia perfeito.

Rodrigo, por sua vez, guardou o chaveiro no fundo de uma gaveta de cabeceira. Na adolescência, os amigos começaram a zombar quando viram o objeto com nome de menina em sua mochila, o que o fez recolher a lembrança ao isolamento da gaveta. Mas ele nunca teve coragem de jogá-lo fora.

O reencontro acontece no campus da faculdade, no primeiro dia de aula,  em um corredor lotado, quando os dois se esbarram. Livros caem e pedidos de desculpas são ditos rapidamente e, por um breve segundo os olhos de Rodrigo cruzam com os de Letícia. Há um estalo silencioso, uma sensação familiar esquisita, mas a pressa do início das aulas os faz seguir em frente. Eles não se reconheceram. Os traços infantis tinham dado lugar às linhas da vida adulta.

Como o destino gosta de insistir, semanas depois, o professor de projetos os coloca no mesmo grupo de trabalho. A convivência forçada revela uma afinidade natural. Eles riem das mesmas piadas, pensam de forma parecida e a química entre os dois é evidente para qualquer um que os visse na biblioteca, embora ambos mantêm o foco nos prazos acadêmicos.

Em uma tarde chuvosa de quinta-feira, Letícia vai até o apartamento de Rodrigo para finalizarem a edição da apresentação do projeto. O ambiente é acolhedor, com o som da chuva batendo na janela e o aroma de café fresco preparado por Rodrigo.

Após horas concentrados em frente ao computador, o trabalho finalmente fica pronto.

– Conseguimos! – Letícia comemora, levantando-se da cadeira para pegar seu casaco no encosto.

Ao puxar a jaqueta, ela esbarra na própria bolsa, que está com o zíper completamente aberto. O impacto faz com que cadernos, estojos e maquiagens se espalhem pelo chão.

– Deixa que eu te ajudo – diz Rodrigo, agachando-se imediatamente.

Os dois começam a recolher os objetos. No meio da bagunça, o molho de chaves de Letícia escorrega para a frente, parando exatamente entre as mãos de Rodrigo.

O reflexo da luminária da sala bate no metal velho e gasto, revelando as letras gravadas que ele conhecia tão bem: Rodrigo. O coração do rapaz dá um solavanco tão forte que ele chega a perder o fôlego. Seus olhos se arregalam. Ele toca no objeto, sentindo o peso do metal idêntico ao que marcava suas lembranças.


Sem dizer uma única palavra, com o rosto pálido de choque, Rodrigo se levanta apressado e corre em direção ao quarto, enquanto Letícia fica estática, ajoelhada no chão, sem entender o motivo daquela reação repentina.

No quarto, Rodrigo abre a gaveta de cabeceira com força. Revira papéis antigos, objetos perdidos, até que seus dedos tocam o metal frio, e ele puxa o chaveiro.

Ao voltar para o corredor, ele caminha lentamente até Letícia e estende o braço abrindo a palma da mão. Ali, brilhando sob a luz sutil do apartamento, está o chaveiro com o nome Letícia.

Letícia olha para a mão dele e, em seguida, para o próprio chaveiro no chão. O quebra-cabeça de mais de uma década se encaixa em sua mente em uma fração de segundo. O Parque dos Jasmins, o algodão-doce, o menino chorando perto do lago. Tudo volta como uma enxurrada de luz.

– É você... – ela sussurra, com os olhos já marejados.

Rodrigo sorri, sentindo as lágrimas também preencherem seus olhos. Eles se levantam e, antes que qualquer explicação longa fizesse sentido, entregam-se a um abraço apertado, daqueles que curam a saudade de uma vida inteira. O abraço logo se transforma em um beijo terno, cheio de alívio e certezas.

O elo de infância que nunca havia se quebrado agora pavimenta o caminho para o futuro. Eles se reencontraram para nunca mais se separar, prontos para viverem felizes para sempre.



sexta-feira, 23 de outubro de 2026

De que adianta ter diplomas?

                                         


Diógenes, 40 anos, diretor executivo de uma multinacional, mantém seu corpo saudável indo à academia três vezes por semana. Ele é pontualíssimo para chegar ao trabalho.

Todos os dias de segunda a sexta as 7h45, com sua pasta de couro legítimo da marca Bellavorn, vestindo seu terno de alta costura feito pelo alfaiate mais requintado da Europa, o Domenico Vittoré,  ele passa na catraca do prédio, onde fica a empresa. Acompanhando as notícias em seu celular, ele ignora os funcionários que estão polindo o belo piso de mármore e o simpático Sr. Valdir, o porteiro da empresa, que lá trabalha há mais de 20 anos, sempre mantendo o bom humor e com seu terno muito simples, mas alinhado.

–  Bom dia Dr. Diógenes! Hoje vai chover viu? – Fala Sr. Valdir.

Diógenes advogado diplomado em Harvard com pós graduação em Oxford e especializações na USP e FGV considera o tempo precioso demais para ser gasto com trivialidades como cumprimentar funcionários.

Enquanto o elevador sobre até o 20º andar, onde fica a sua sala, se olha no espelho, ajusta o nó da gravata, passa um pente no cabelo e em um ato narcisista ele dá uma piscadinha para si próprio. No saguão pega um café na máquina e as 8h00 em ponto, sentado à sua mesa em sua grande sala, com o notebook ligado começa a conferir seus e-mails, mas antes dá um sorriso olhando os seus diplomas na parede.

Certo dia...

– Bom dia, Dr. Diógenes! Hoje vai esquentar, viu? – falou Sr. Valdir.

Porém, Diógenes mantém o seu ritual.  Para ele o mundo se dividia em quem assinava os contratos e quem fazia o serviço braçal.

Para Diógenes este dia era especial. Aconteceria uma reunião pela qual ele passou dias se preparando e que definiria o futuro da empresa, e por consequência o dele.

O elevador subiu suavemente até o 16º, onde deu um solavanco violento e parou. As luzes se apagaram, deixando apenas a iluminação de emergência e um silêncio profundo. O ar-condicionado desligou.

O calor neste dia está infernal e a cabine se transformou em uma sauna.

Ao tentar usar o celular percebe que está sem sinal. Desesperado,  ele aperta o botão do interfone, mas um chiado forte impede a comunicação. Então, ele começa a bater forte na porta de inox com sua camisa de linho belga molhada de suor.

– Alguém me ajuda. Estou preso. Tirem-me daqui. Eu tenho uma reunião em 20 minutos. – gritava com a voz mesclando arrogância com desespero.

Uma voz tranquila e serena ecoou pelo poço do elevador:

– Calma, Dr. Diógenes! É o Valdir. Estamos com falta de energia e o elevador não respondeu ao gerador. Já sabemos onde o senhor está. Os técnicos dos elevadores já estão a  caminho. É só 30 minutinhos. O Senhor está bem?

– Valdir! Liga para a minha secretária, avisa que estou preso.

– Ela já foi avisada. Fique calmo. A sua reunião foi adiada.

– Como ficar calmo numa hora destas – pensa Diógenes.

Ele senta no piso do elevador e encosta a cabeça na parede. O pânico começa aumentar, mas  escuta a voz do Sr. Valdir muito mais próxima. Desta vez, não pelo poço, mas de fora da cabine.

– Dr. Diógenes estou aqui para lhe fazer companhia.

Diógenes chega até sorrir, mas pensa por que aquele homem, que ele ignorou por anos, subiu 16 andares pela escada para lhe confortar e lhe fazer companhia?

Foram 45 minutos em que Diógenes, ensopado de suor, ouvia a voz de Valdir contando histórias revezando com piadas e gostando.

O técnico de elevador chega e abre a porta para que Diógenes possa sair. Ele olha para Valdir que com um sorriso estende a mão com uma garrafa de água e um pano limpo.

Naquele momento, todo o prestígio dos diplomas e carreira jurídica pareceu absurdamente sem importância. Nenhuma universidade o ensinou a sair de um elevador enguiçado. Nenhuma especialização tinha o poder de acalmá-lo no escuro como o Sr. Valdir, que foi ignorado por tanto tempo.

Diógenes sai de elevador com sua pasta caríssima, a deixa no chão, pega a água e bebe como se tivesse passado uma semana em um deserto. Passa o pano no rosto, agradece o técnico com um aperto de mão e abraça o Sr. Valdir como se fossem amigos de anos.

– Valdir. Muito obrigado. Não sei o que seria de mim sem você.

– Não foi nada Doutor. Estou aqui para isto. Para ajudar quem precisa.

No dia seguinte Diógenes as 7h45, com sua pasta de couro legítimo da marca Bellavorn, vestindo outro terno de alta costura feito pelo alfaiate Domenico Vittoré, passa na catraca do prédio, sem estar olhando o celular, com um sorriso, acena para os funcionários que estão polindo piso e percebe o Sr. Valdir com a cabeça baixa separando a correspondência. E, pela primeira vez ele para em frente ao balcão...

– Bom dia Valdir. Acho que vai chover, hein? Como está a família?

O antigo funcionário sorri surpreso, mas com a experiência de quem já viu muita gente aprender as lições mais difíceis da vida, responde:

– Bom dia, Dr. Diógenes! Tudo bem com todos. É! Vai chover mesmo.

Diógenes sorriu com sinceridade e caminhou até o elevador, consciente de que, pela primeira vez, conseguiu ver a vida além de seus diplomas. Agora ele não era apenas um grande executivo, com a lição aprendida, se tornou em um grande homem.