Diógenes, 40 anos, diretor executivo de
uma multinacional, mantém seu corpo saudável indo à academia três vezes por
semana é pontualíssimo para chegar ao trabalho.
Todos os dias de segunda a sexta as 7h45,
com sua pasta de couro legítimo da marca Bellavorn, vestindo seu terno de alta
costura feito pelo alfaiate mais requintado da Europa, o Domenico Vittoré, ele passa na catraca do prédio, onde fica a
empresa. Acompanhando as notícias em seu celular, ele ignora os funcionários
que estão polindo o belo piso de mármore e o simpático Sr. Valdir, o porteiro
da empresa, que lá trabalha há mais de 20 anos sempre mantendo o bom humor e
com seu terno muito simples, mas alinhado.
–
Bom dia Dr. Diógenes! Hoje vai chover viu? – Fala Sr. Valdir.
Diógenes advogado diplomado em Harvard
com pós graduação em Oxford e especializações na USP e FGV considera o tempo
precioso demais para ser gasto com trivialidades como cumprimentar
funcionários.
Enquanto o elevador sobre até o 20º andar,
onde fica a sua sala, se olha no espelho, ajusta o nó da gravata, passa um
pente no cabelo e em um ato narcisista ele dá uma piscadinha para si próprio.
No saguão pega um café na máquina e as 8h00 em ponto, sentado à sua mesa em sua
grande sala, com o notebook ligado começa a conferir seus e-mails, mas antes dá
um sorriso olhando os seus diplomas na parede.
Certo dia...
– Bom dia, Dr. Diógenes! Hoje vai
esquentar, viu? – falou Sr, Valdir.
Porém, Diógenes mantém o seu
ritual. Para ele o mundo se dividia em
quem assinava os contratos e quem fazia o serviço braçal.
Para Diógenes este dia era especial.
Aconteceria uma reunião pela qual ele passou dias se preparando e que definiria
o futuro da empresa, e por consequência o dele.
O elevador subiu suavemente até o 16º,
onde deu um solavanco violento e parou. As luzes se apagaram, deixando apenas a
iluminação de emergência e um silêncio profundo. O ar-condicionado desligou.
O calor neste dia está infernal e a
cabine se transformou em uma sauna.
Ao tentar usar o celular percebe que
está sem sinal. Desesperado, ele aperta
o botão do interfone, mas um chiado forte impede a comunicação. Então, ele
começa a bater forte na porta de inox com sua camisa de linho belga molhada de
suor.
– Alguém me ajuda. Estou preso. Tirem-me
daqui. Eu tenho uma reunião em 20 minutos. – gritava com a voz mesclando
arrogância com desespero.
Uma voz tranquila e serena ecoou pelo
poço do elevador:
– Calma, Dr. Diógenes! É o Valdir. Estamos
com falta de energia e o elevador não respondeu ao gerador. Já sabemos onde o
senhor está. Os técnicos dos elevadores já estão a caminho. É só 30 minutinhos. O Senhor está
bem?
– Valdir! Liga para a minha secretária,
avisa que estou preso.
– Ela já foi avisada. Fique calmo. A sua
reunião foi adiada.
– Como ficar calmo numa hora destas –
pensa Diógenes.
Ele senta no piso do elevador e encosta
a cabeça na parede. O pânico começa aumentar, mas escuta a voz do Sr. Valdir muito mais próxima.
Desta vez, não pelo poço, mas de fora da cabine.
– Dr. Diógenes estou aqui para lhe fazer
companhia.
Diógenes chega até sorrir, mas pensa por
que aquele homem, que ele ignorou por anos, subiu 16 andares pela escada para
lhe confortar e lhe fazer companhia?
Foram 45 minutos em que Diógenes,
ensopado de suor, ouvia a voz de Valdir contando histórias revezando com piadas
e gostando.
O técnico de elevador chega e abre a
porta para que Diógenes possa sair. Ele olha para Valdir que com um sorriso
estende a mão com uma garrafa de água e um pano limpo.
Naquele momento, todo o prestígio dos
diplomas e carreira jurídica pareceu absurdamente sem importância. Nenhuma universidade
o ensinou a sair de um elevador enguiçado. Nenhuma especialização tinha o poder
de acalmá-lo no escuro como o Sr. Valdir, que foi ignorado por tanto tempo.
Diógenes sai de elevador com sua pasta caríssima, a deixa no chão, pega a água e bebe como se tivesse passado uma semana em um deserto. Passa o pano no rosto, agradece o técnico com um aperto de mão e abraça o Sr. Valdir como se fossem amigos de anos.
– Valdir. Muito obrigado. Não sei o que
seria de mim sem você.
– Não foi nada Doutor. Estou aqui para
isto. Para ajudar quem precisa.
No dia seguinte Diógenes as 7h45, com
sua pasta de couro legítimo da marca Bellavorn, vestindo outro terno de alta
costura feito pelo alfaiate Domenico Vittoré, passa na catraca do prédio, sem
estar olhando o celular, com um sorriso, acena para os funcionários que estão
polindo piso e percebe o Sr. Valdir com a cabeça baixa separando a correspondência.
E, pela primeira vez ele para em frente ao balcão...
– Bom dia Valdir. Acho que vai chover,
hein? Como está a família?
O antigo funcionário sorri surpreso, mas
com a experiência de quem já viu muita gente aprender as lições mais difíceis
da vida, responde:
– Bom dia, Dr. Diógenes! Tudo bem com todos.
É vai chover mesmo.
Diógenes sorriu com sinceridade e
caminhou até o elevador, consciente de que, pela primeira vez, conseguiu ver a
vida além de seus diplomas. Agora ele não era apenas um grande executivo, com a
lição aprendida, se tornou em um grande homem.


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