sexta-feira, 23 de outubro de 2026

De que adianta ter diplomas?

                                         

Diógenes, 40 anos, diretor executivo de uma multinacional, mantém seu corpo saudável indo à academia três vezes por semana é pontualíssimo para chegar ao trabalho.

Todos os dias de segunda a sexta as 7h45, com sua pasta de couro legítimo da marca Bellavorn, vestindo seu terno de alta costura feito pelo alfaiate mais requintado da Europa, o Domenico Vittoré,  ele passa na catraca do prédio, onde fica a empresa. Acompanhando as notícias em seu celular, ele ignora os funcionários que estão polindo o belo piso de mármore e o simpático Sr. Valdir, o porteiro da empresa, que lá trabalha há mais de 20 anos sempre mantendo o bom humor e com seu terno muito simples, mas alinhado.

–  Bom dia Dr. Diógenes! Hoje vai chover viu? – Fala Sr. Valdir.

Diógenes advogado diplomado em Harvard com pós graduação em Oxford e especializações na USP e FGV considera o tempo precioso demais para ser gasto com trivialidades como cumprimentar funcionários.

Enquanto o elevador sobre até o 20º andar, onde fica a sua sala, se olha no espelho, ajusta o nó da gravata, passa um pente no cabelo e em um ato narcisista ele dá uma piscadinha para si próprio. No saguão pega um café na máquina e as 8h00 em ponto, sentado à sua mesa em sua grande sala, com o notebook ligado começa a conferir seus e-mails, mas antes dá um sorriso olhando os seus diplomas na parede.

Certo dia...

– Bom dia, Dr. Diógenes! Hoje vai esquentar, viu? – falou Sr, Valdir.

Porém, Diógenes mantém o seu ritual.  Para ele o mundo se dividia em quem assinava os contratos e quem fazia o serviço braçal.

Para Diógenes este dia era especial. Aconteceria uma reunião pela qual ele passou dias se preparando e que definiria o futuro da empresa, e por consequência o dele.

O elevador subiu suavemente até o 16º, onde deu um solavanco violento e parou. As luzes se apagaram, deixando apenas a iluminação de emergência e um silêncio profundo. O ar-condicionado desligou.

O calor neste dia está infernal e a cabine se transformou em uma sauna.

Ao tentar usar o celular percebe que está sem sinal. Desesperado,  ele aperta o botão do interfone, mas um chiado forte impede a comunicação. Então, ele começa a bater forte na porta de inox com sua camisa de linho belga molhada de suor.

– Alguém me ajuda. Estou preso. Tirem-me daqui. Eu tenho uma reunião em 20 minutos. – gritava com a voz mesclando arrogância com desespero.

Uma voz tranquila e serena ecoou pelo poço do elevador:

– Calma, Dr. Diógenes! É o Valdir. Estamos com falta de energia e o elevador não respondeu ao gerador. Já sabemos onde o senhor está. Os técnicos dos elevadores já estão a  caminho. É só 30 minutinhos. O Senhor está bem?

– Valdir! Liga para a minha secretária, avisa que estou preso.

– Ela já foi avisada. Fique calmo. A sua reunião foi adiada.

– Como ficar calmo numa hora destas – pensa Diógenes.

Ele senta no piso do elevador e encosta a cabeça na parede. O pânico começa aumentar, mas  escuta a voz do Sr. Valdir muito mais próxima. Desta vez, não pelo poço, mas de fora da cabine.

– Dr. Diógenes estou aqui para lhe fazer companhia.

Diógenes chega até sorrir, mas pensa por que aquele homem, que ele ignorou por anos, subiu 16 andares pela escada para lhe confortar e lhe fazer companhia?

Foram 45 minutos em que Diógenes, ensopado de suor, ouvia a voz de Valdir contando histórias revezando com piadas e gostando.

O técnico de elevador chega e abre a porta para que Diógenes possa sair. Ele olha para Valdir que com um sorriso estende a mão com uma garrafa de água e um pano limpo.

Naquele momento, todo o prestígio dos diplomas e carreira jurídica pareceu absurdamente sem importância. Nenhuma universidade o ensinou a sair de um elevador enguiçado. Nenhuma especialização tinha o poder de acalmá-lo no escuro como o Sr. Valdir, que foi ignorado por tanto tempo.

Diógenes sai de elevador com sua pasta caríssima, a deixa no chão, pega a água e bebe como se tivesse passado uma semana em um deserto. Passa o pano no rosto, agradece o técnico com um aperto de mão e abraça o Sr. Valdir como se fossem amigos de anos.

– Valdir. Muito obrigado. Não sei o que seria de mim sem você.

– Não foi nada Doutor. Estou aqui para isto. Para ajudar quem precisa.

No dia seguinte Diógenes as 7h45, com sua pasta de couro legítimo da marca Bellavorn, vestindo outro terno de alta costura feito pelo alfaiate Domenico Vittoré, passa na catraca do prédio, sem estar olhando o celular, com um sorriso, acena para os funcionários que estão polindo piso e percebe o Sr. Valdir com a cabeça baixa separando a correspondência. E, pela primeira vez ele para em frente ao balcão...

– Bom dia Valdir. Acho que vai chover, hein? Como está a família?

O antigo funcionário sorri surpreso, mas com a experiência de quem já viu muita gente aprender as lições mais difíceis da vida, responde:

– Bom dia, Dr. Diógenes! Tudo bem com todos. É vai chover mesmo.

Diógenes sorriu com sinceridade e caminhou até o elevador, consciente de que, pela primeira vez, conseguiu ver a vida além de seus diplomas. Agora ele não era apenas um grande executivo, com a lição aprendida, se tornou em um grande homem.



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