As
luzes do Parque dos Jasmins assumem a função do Sol que já começa a se pôr no
horizonte pintando o céu com tons alaranjados.
No
meio do vaivém de famílias e do cheiro doce de pipoca no ar, o pequeno Rodrigo,
de apenas dez anos, sentia o peito apertar. Ele havia se afastado dos pais
perto do lago e, agora, as lágrimas teimavam em cair.
– Você
está perdido? – uma voz suave o desperta.
Rodrigo
olha para o lado e vê uma menina da sua idade, com os cabelos desalinhados pelo
vento e segurando um imenso algodão-doce rosa. É Letícia, que sem esperar
resposta, estende a outra mão oferecendo parte do doce.
–
Minha mãe diz que açúcar cura susto – diz sorrindo.
Aquele
gesto simples muda tudo. Pelas horas
seguintes, enquanto os pais de ambos não aparecem na administração do parque,
os dois se tornam inseparáveis. Correm pelos brinquedos luminosos, divertem-se
no carrossel e terminam a tarde tentando a sorte na barraca de argolas. Como
prêmio de consolação, ganham dois chaveiros de metal pesado, com seus nomes gravados
de forma rústica.
A
despedida é abrupta. Os pais de Rodrigo surgem aliviados, assim como os de
Letícia. Sabendo que o tempo é curto e sem papel para anotar um telefone,
Letícia tem uma ideia. Ela pega o chaveiro que tem o nome Letícia e entrega
para ele, pegando para si o que tinha o nome Rodrigo.
– Para
a gente nunca esquecer – ela diz, antes de ser puxada pela mãe.
Na
semana seguinte, a família de Letícia muda-se para outro estado. O destino os
separou geograficamente, mas o elo estava criado.
Os
anos passaram. Letícia cresceu carregando aquele pedaço de metal para todos os
lugares. O chaveiro com o nome Rodrigo tornou-se seu amuleto da sorte, preso à
chave principal, embora o metal estivesse gasto e arranhado pelo tempo. Para
ela, representava a inocência de um dia perfeito.
Rodrigo,
por sua vez, guardou o chaveiro no fundo de uma gaveta de cabeceira. Na
adolescência, os amigos começaram a zombar quando viram o objeto com nome de
menina em sua mochila, o que o fez recolher a lembrança ao isolamento da
gaveta. Mas ele nunca teve coragem de jogá-lo fora.
O
reencontro acontece no campus da faculdade, no primeiro dia de aula, em um corredor lotado, quando os dois se
esbarram. Livros caem e pedidos de desculpas são ditos rapidamente e, por um
breve segundo os olhos de Rodrigo cruzam com os de Letícia. Há um estalo
silencioso, uma sensação familiar esquisita, mas a pressa do início das aulas
os faz seguir em frente. Eles não se reconheceram. Os traços infantis tinham
dado lugar às linhas da vida adulta.
Como o
destino gosta de insistir, semanas depois, o professor de projetos os coloca no
mesmo grupo de trabalho. A convivência forçada revela uma afinidade natural.
Eles riem das mesmas piadas, pensam de forma parecida e a química entre os dois
é evidente para qualquer um que os visse na biblioteca, embora ambos mantêm o
foco nos prazos acadêmicos.
Em uma
tarde chuvosa de quinta-feira, Letícia vai até o apartamento de Rodrigo para
finalizarem a edição da apresentação do projeto. O ambiente é acolhedor, com o
som da chuva batendo na janela e o aroma de café fresco preparado por Rodrigo.
Após
horas concentrados em frente ao computador, o trabalho finalmente fica pronto.
–
Conseguimos! – Letícia comemora, levantando-se da cadeira para pegar seu casaco
no encosto.
Ao
puxar a jaqueta, ela esbarra na própria bolsa, que está com o zíper
completamente aberto. O impacto faz com que cadernos, estojos e maquiagens se
espalhem pelo chão.
–
Deixa que eu te ajudo – diz Rodrigo, agachando-se imediatamente.
Os
dois começam a recolher os objetos. No meio da bagunça, o molho de chaves de
Letícia escorrega para a frente, parando exatamente entre as mãos de Rodrigo.
O
reflexo da luminária da sala bate no metal velho e gasto, revelando as letras
gravadas que ele conhecia tão bem: Rodrigo. O coração do rapaz dá um solavanco
tão forte que ele chega a perder o fôlego. Seus olhos se arregalam. Ele toca no
objeto, sentindo o peso do metal idêntico ao que marcava suas lembranças.
Sem dizer uma única palavra, com o rosto pálido de choque, Rodrigo se levanta apressado e corre em direção ao quarto, enquanto Letícia fica estática, ajoelhada no chão, sem entender o motivo daquela reação repentina.
No quarto, Rodrigo abre a gaveta de cabeceira com força. Revira papéis antigos, objetos perdidos, até que seus dedos tocam o metal frio, e ele puxa o chaveiro.
Ao voltar para o corredor, ele caminha lentamente até Letícia e estende o braço abrindo a palma da mão. Ali, brilhando sob a luz sutil do apartamento, está o chaveiro com o nome Letícia.
Letícia olha para a mão dele e, em seguida, para o próprio chaveiro no chão. O quebra-cabeça de mais de uma década se encaixa em sua mente em uma fração de segundo. O Parque dos Jasmins, o algodão-doce, o menino chorando perto do lago. Tudo volta como uma enxurrada de luz.
– É você... – ela sussurra, com os olhos já marejados.
Rodrigo sorri, sentindo as lágrimas também preencherem seus olhos. Eles se levantam e, antes que qualquer explicação longa fizesse sentido, entregam-se a um abraço apertado, daqueles que curam a saudade de uma vida inteira. O abraço logo se transforma em um beijo terno, cheio de alívio e certezas.
O elo de infância que nunca havia se quebrado agora pavimenta o caminho para o futuro. Eles se reencontraram para nunca mais se separar, prontos para viverem felizes para sempre.


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